A visão de Ian Bremmer, da Eurasia: mudar o regime no Irã sem tropas é uma aposta arriscada de Trump

A visão de Ian Bremmer, da Eurasia: mudar o regime no Irã sem tropas é uma aposta arriscada de Trump

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A ofensiva militar dos EUA e Israel contra o Irã visa não apenas a contenção nuclear, mas também a mudança de regime, o que é considerado uma estratégia arriscada por Ian Bremmer, presidente da Eurasia Group. Ele destaca que eliminar líderes não garante o colapso do sistema de poder iraniano, que é sustentado pela Guarda Revolucionária Islâmica, capaz de manter o controle mesmo após perdas.

A história mostra que guerras de mudança de regime sem tropas em terra raramente são bem-sucedidas. Além disso, a estratégia americana carece de legitimidade internacional, sendo unilateral e sem uma coalizão ampla. O Irã, com instituições repressivas e uma forte capacidade de resistência, pode reagir de maneiras que ampliem o conflito. A combinação de ataques militares e operações de inteligência pode não ser suficiente para provocar uma implosão política, resultando em um cenário de instabilidade e incerteza.

* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed

A ofensiva militar lançada por Estados Unidos e Israel contra o Irã vai muito além da contenção nuclear. O objetivo central e mais difícil é provocar uma mudança de regime em Teerã, atingindo diretamente a cúpula do poder iraniano.

Para Ian Bremmer, presidente da Eurasia Group, trata‑se de uma estratégia ambiciosa, com alto grau de incerteza. “Destruir instalações é uma coisa. Derrubar um regime a partir do ar é outra completamente diferente”, afirmou Bremmer, em vídeo (assista abaixo).

A dificuldade está no fato de que o sistema político iraniano não depende apenas de figuras individuais. Mesmo com líderes mortos ou incapacitados, o regime pode se reorganizar rapidamente. “Eliminar a liderança não significa eliminar a estrutura de poder”, disse Bremmer.

De acordo com o presidente da Eurasia, a Guarda Revolucionária Islâmica, pilar central do Estado iraniano, segue sendo uma força capaz de manter o controle interno, administrar o país e absorver perdas no comando. “A mudança de regime é o objetivo mais difícil que existe”, disse Bremmer. “E quando ela falha, o custo costuma ser alto.”

A história recente mostra que guerras de mudança de regime sem tropas em terra raramente produzem resultados rápidos ou estáveis. No caso iraniano, o desafio é ainda maior. O país tem instituições repressivas consolidadas, redes de inteligência internas robustas e uma longa experiência em sobreviver sob pressão externa.

“O regime pode perder pessoas, mas não perde automaticamente sua capacidade de governar”, afirmou Bremmer. “Sem ocupação territorial, não há garantia de colapso institucional. Pelo contrário: a pressão externa pode reforçar a coesão interna do aparato de segurança e legitimar repressões mais duras.”

Esse é o ponto de maior fragilidade da estratégia americana, na visão de Bremmer. A aposta é que a combinação de ataques militares, operações de inteligência e ações cirúrgicas contra lideranças gere uma implosão política. Mas não há evidência clara de que isso seja suficiente.

Se a mudança de regime divide opiniões, o ataque ao programa nuclear iraniano reúne um consenso mais amplo. Segundo Bremmer, “quase ninguém no sistema internacional quer ver o Irã com uma arma nuclear”.

Mesmo após conflitos anteriores, Teerã continuou expandindo seu programa, dificultou o trabalho de inspetores internacionais e ignorou resoluções do Conselho de Segurança da ONU.

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A destruição das instalações nucleares é vista, portanto, como um objetivo defensável por parte da comunidade internacional. Países europeus, além de Canadá e Austrália, manifestaram apoio aos EUA nesse aspecto. O problema é que o foco exclusivo no nuclear não explica a escala da atual ofensiva.

Do ponto de vista militar, o Irã tem pouca margem para escalar o conflito de forma direta. Sua Marinha é limitada, os sistemas de radar foram degradados e o estoque de mísseis tende a se esgotar rapidamente. “Os iranianos têm mais capacidade de causar disrupção do que de vencer uma guerra”, afirmou Bremmer.

As alternativas passam por ações indiretas: fechamento temporário do Estreito de Ormuz, ataques por grupos aliados como os houthis ou sabotagem de infraestrutura energética regional.

Essas medidas poderiam pressionar o mercado de petróleo, mas seriam difíceis de sustentar e tenderiam a ampliar o conflito. “É uma reação mais movida por desespero do que por força real”, disse Bremmer.

Outro elemento central, segundo Bremmer, é o caráter essencialmente unilateral da decisão americana. Diferentemente do Iraque e do Afeganistão, não há uma coalizão internacional ampla. A ofensiva foi desenhada por Washington, em coordenação com Israel, sem consulta significativa a aliados europeus.

Na visão de Bremmer, a decisão refletiu uma mudança no processo interno dos EUA. Setores contrários à escalada foram gradualmente afastados, e o presidente optou por agir com um círculo decisório reduzido. “Os EUA estão usando seu poder militar sem buscar legitimidade coletiva”, afirmou.

Para além do Irã, o conflito expõe um risco mais amplo: o uso do poder militar americano para objetivos políticos. Em intervenções anteriores, como na Venezuela, os alvos eram mais limitados. No Irã, a ambição é maior, o terreno é mais instável e as consequências são imprevisíveis.

O resultado é um cenário de elevada instabilidade, em que a destruição é imediata, mas o desfecho político permanece incerto. E é justamente nessa lacuna entre poder militar e controle político que reside o maior risco da aposta americana no Irã.



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