Com crédito travado, empresas aceleram aumentos de capital para cortar dívida

Com crédito travado, empresas aceleram aumentos de capital para cortar dívida

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Os aumentos de capital voltaram a ganhar espaço como alternativa para empresas endividadas em um cenário de crédito mais caro e restrito. No ano, as emissões de ações somam R$ 7,5 bilhões, com destaque para operações da Azul e da Hypera, voltadas à redução da alavancagem. O movimento deve continuar, com ofertas em andamento, como as do grupo Simpar e da Vitru Educação.

A busca por recursos na bolsa ocorre em meio à piora das condições financeiras. A elevação das expectativas de inflação e juros tem pressionado o mercado de crédito, reduzindo a captação de fundos e elevando spreads. Em março, a entrada líquida em fundos de crédito privado caiu significativamente, reforçando a perspectiva de menor oferta de financiamento via dívida.

Nesse contexto, o equity surge como alternativa para reforço de caixa, ainda que implique diluição de acionistas. Para credores, porém, o aumento de capital é visto como um sinal positivo. Já empresas com maior pressão financeira também têm recorrido a reestruturações, como recuperações judiciais ou extrajudiciais

* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed

Os aumentos de capital voltaram a ganhar tração como uma das principais saídas para companhias endividadas em meio a um mercado de crédito cada vez mais caro e seletivo.

No acumulado do ano, o volume de ações emitido por empresas listadas está em R$ 7,5 bilhões, em operações que, em grande parte, têm como foco a redução da alavancagem e o reforço da estrutura de capital.

As maiores contribuições vieram da Azul, que realizou um follow-on de quase R$ 5 bilhões como parte de sua reestruturação, incluindo a conversão de dívida em ações, e da Hypera Pharma, que levantou R$ 1,5 bilhão em uma oferta privada, restrita aos acionistas da empresa.

O volume de emissões primárias no ano já é 85% superior ao registrado no mesmo período de 2025, e tem condições de mais que dobrar ainda no curto prazo, considerando apenas as operações em aberto.

A operação que possui maior potencial é a emissão de R$ 536 milhões a R$ 8,8 bilhões em ações do BRB, que busca reestruturar seu capital após perdas significativas com o Banco Master.

Outra oferta relevante no radar envolve o grupo Simpar, que estrutura aumentos de capital para reduzir seu endividamento e o de suas controladas.

A holding — cuja dívida líquida corresponde a cerca de 3 vezes seu Ebitda — pode levantar até R$ 2 bilhões, enquanto suas subsidiárias Vamos e Movida buscam até R$ 600 milhões e R$ 750 milhões, respectivamente. Nesta semana, a Movida informou já ter alcançado o montante mínimo de R$ 500 milhões com seus acionistas, viabilizando a oferta.

Quem também está se movimentando para levantar capital sem recorrer a mais dívidas é a Vitru Educação. Na quarta-feira, 8 de abril, a dona das faculdades Uniasselvi e Unicesumar protocolou uma oferta pública de ações com potencial de levantar até R$ 300 milhões, com parte dos recursos destinada à amortização do passivo.

A lista de companhias que, neste ano, já recorreram ao mercado de ações para tentar reduzir a dívida inclui ainda o Grupo Mateus, a Pague Menos, a Gafisa, a Infracommerce e a Paranapanema. De capital aberto, mas fora da bolsa, a Aegea levantou R$ 1,2 bilhão com seus principais acionistas para tentar equalizar sua dívida.

“De modo geral, essas operações aparecem em empresas mais pressionadas. Se a companhia estivesse bem, não estaria precisando levantar recursos, a menos que houvesse uma grande oportunidade de investimento”, diz Ricardo Simon, diretor do family office Eclipseon.

Para Simon, a piora das expectativas de inflação atreladas aos efeitos das guerras no Oriente Médio pode ter agravado esse cenário. “Havia a expectativa de uma queda maior dos juros longos, mas não parece que vai se concretizar, pelo menos no curto prazo. Então, essas empresas que estão com o nível de alavancagem mais alto podem acabar tendo mais dificuldade.”

No Boletim Focus, as expectativas para a Selic no fim deste ano subiram de 12,13% para 12,5% nas últimas quatro semanas, enquanto as projeções para o IPCA subiram de 3,91% para 4,36%. O maior efeito, porém, tem sido sobre a renda fixa, afetando diretamente a fonte de recursos de companhias abertas.

Crédito mais restrito

Com as expectativas de inflação e juros mais altos, o benchmark dos fundos de infraestrutura fechou março com uma performance negativa de 1,74%, enquanto os spreads subiram 34 pontos-base.

O cenário, segundo analistas do banco ABC, tem semelhanças com o enfrentado pela indústria em outubro do ano passado, quando resultados negativos secaram o volume de captação.

Em março deste ano, os fundos de infraestrutura tiveram captação líquida de R$ 4,1 bilhões, segundo levantamento do banco ABC.

“O que não se sabe ainda é o nível de resgates, dado que a indústria trabalha com prazos de D+30 ou mais. Após a performance ruim de outubro, os resgates chegaram a R$ 1 bilhão por dia, mas apenas em dezembro, 45 dias depois”, diz o relatório do ABC.

Nos fundos de crédito privado, a captação líquida caiu de R$ 23,2 bilhões em janeiro e R$ 8,4 bilhões em fevereiro para R$ 600 milhões em março. Com menos dinheiro novo nos fundos de crédito e risco de saída, a expectativa é de queda no volume de emissões de dívida.

Em pesquisa do ABC com gestores de crédito, somente 16% disseram que o volume do mercado primário deverá aumentar, enquanto 50% aguardam uma queda da atividade nos próximos três meses. O pessimismo também é em relação ao comportamento dos spreads, com 75% dos gestores à espera de uma piora de preços, contra 24% há seis meses.

O aumento de capital, diz o gestor, é sempre uma sinalização positiva para o credor, dado que os acionistas de referência estão colocando dinheiro novo na empresa. Ele ressalta, porém, que essas operações envolvem a diluição de minoritários, caso não acompanhem a oferta.

“É uma decisão estratégica do controlador, em função do que ele está vendo dos credores. No fim, é uma disputa entre controladores e credores para definir de onde virão os recursos para manter a operação das empresas”, afirma o gestor.

Com menos dinheiro novo para financiar a dívida de companhias que já estão altamente alavancadas, outra saída tem sido a recuperação judicial ou extrajudicial, como fizeram a Raízen e o GPA no mês passado.

“No caso da Raízen, por exemplo, é claro que os credores gostariam de um grande aumento de capital da Cosan e da Shell, em vez de uma repressão institucional.”

A expectativa de Utsch é de que a maior parte das principais reestruturações da bolsa já esteja encaminhada, sem a necessidade de grandes aumentos de capital no curto prazo ou pedidos de RJ. “Se tiver muito mais, aí já é um cenário bem ruim.”

Um dos casos que ainda está em aberto é o da Oncoclínicas. Em novembro, a companhia realizou um aumento de capital de R$ 1,4 bilhão, com conversão de parte da dívida, mas segue buscando uma solução junto aos credores, já que está à beira de atingir o limite máximo de alavancagem previsto nos contratos da dívida, o que possibilitaria antecipar seu vencimento.

A companhia, que se encontra em meio a uma negociação de venda de suas operações para a Porto, afirmou que está avaliando acionar a Justiça para se proteger contra os credores.



Fonte: NeoFeed

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