Idosos recorrem à atividade física para cuidar do corpo e da mente

Idosos recorrem à atividade física para cuidar do corpo e da mente

Deusa, uma mulher de baixa estatura e cabelos brancos, trajava uma saia longa e vermelha, enfeitada com bijuterias, em uma sala com outras quatro mulheres que usavam roupas similares. Ali se reúne semanalmente um grupo de dança circular, o motivo da felicidade de Deusa.

Ela é uma das participantes da atividade, realizada na Unidade de Referência à Saúde do Idoso do Jaçanã, na zona norte de São Paulo. No espaço, gerido pela administração paulistana, as mulheres recorrem à dança para, em suas palavras, ter um momento de reencontro com a vida a partir do bem-estar físico e mental promovido pelo exercício físico.

Dançar é uma ótima atividade para quem busca envelhecer bem, segundo especialistas, e grupos de dança deveriam ganhar cada vez mais espaço nos equipamentos de saúde pública. A prática ajuda na prevenção de doenças cardiovasculares, como infarto e AVC (acidente vascular cerebral), e crônicas, como diabetes e obesidade. Contribui ainda para retardar declínio cognitivo e demência.

Pessoas com mais de 60 anos estão cada vez mais conscientes disso. “Na rotina do dia a dia, você vai perdendo o estímulo de viver. Tudo fica neutro, apático. Com a dança eu ganho energia”, diz Deusa. “Se você for agora na minha casa, [vai ver que] está tudo limpinho”, acrescenta, gargalhando.

“À medida que vai envelhecendo, o idoso se isola, porque aumenta a dependência, reduz a mobilidade e ele se sente incomodado ou envergonhado de pedir ajuda. A atividade física devolve a mobilidade, que é uma das principais questões para eles”, afirma Gabriela Prazeres, fisioterapeuta responsável pela unidade no Jaçanã.

Lourdes Belin Barana, 83, conta que conseguiu retomar a postura ereta do tronco através da dança. Ela teve um desvio de coluna (uma alteração anatômica) que surgiu gradualmente a partir dos 60 anos, o que a fazia pender levemente para o lado esquerdo. “A dança levou embora a dor”, afirma. “Eu só consegui retomar a postura depois disso.”

Aos 73 anos, Marco Franco possui um vigor incomum. Pratica natação de três a quatro vezes por semana. “Nado 1.500 metros toda vez que entro na piscina, em 50 minutos, aproximadamente”, conta.

Marco diz que a atividade é uma forma de se manter em contato com sua versão jovem, que praticou muito esporte. Ele conta que jogou bola pelas várzeas da capital paulista, na época em que “nem existia marginal do rio Pinheiros”.

O esporte é, para ele, uma forma de manter a mente em exercício, mas o ganho se dá principalmente na mobilidade.

“A atividade física fortalece sistema cardiovascular e musculatura e melhora a capacidade respiratória. Com esses benefícios, previne-se doenças crônicas progressivas, como hipertensão e diabetes”, afirma a geriatra Lisa Trevizan de Castro, do Hospital Vera Cruz. “Outro ponto importante é a diminuição do risco de queda, que é um fator comum e preocupante entre idosos”, complementa.

Segundo Lisa, a prática regular de atividade física também contribui com a prevenção de doenças que demandam gastos gigantescos do Estado. “São doenças que vão tirando capacidade e autonomia. Resultam em diversas idas ao pronto-socorro e internações. Então, também do ponto de vista da gestão, [investir em esportes] representa uma economia importante”, avalia.

Indicadores de envelhecimento da população brasileira aceleraram para níveis recordes, e pessoas de 65 anos ou mais já representam 10,9% do total de habitantes no país -dos 203,1 milhões de brasileiros, 22,2 milhões estão nesta faixa etária, segundo o Censo de 2022 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

O Ministério da Saúde afirma que investe na abertura de estruturas para oferecer atividade física na atenção primária. A pasta cita o Programa Academia da Saúde, que deve receber R$ 40 milhões em investimentos em 2026. Atualmente, mais de 2.000 estabelecimentos integram a rede credenciada, e o encaminhamento ocorre por meio das unidades de saúde da família.

A psicóloga Flávia Prado Monteiro destaca o benefício do desvio de foco que a atividade física proporciona aos idosos. “Ao praticar qualquer atividade”, ela diz, “o idoso desvia o olhar das dores físicas e mentais, passa a ver a vida como algo válido, ganha autoestima e, consequentemente, melhora intelectual significativa”.

Encerrada a atividade de dança circular, Deusa e Lourdes foram, juntas, para a segunda atividade do dia. No salão de uma igreja no Jaçanã, elas se reuniram com outras mulheres para continuar a dança, desta vez com ritmos modernos.



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