O potencial das terras raras chamou a atenção da MadCap. De olho na possibilidade de investir nesse novo segmento estratégico da mineração, a gestora de private equity deu início à captação internacional de um fundo de investimento.
Com meta de atrair US$ 200 milhões para tocar 10 projetos já mapeados no País, a MadCap começou o roadshow em fevereiro do LTWSK Mining Fund, que terá como como base a cidade de Delaware, nos Estados Unidos, de olho na natureza global do mercado de minerais críticos.
Em menos de 60 dias, o fundo já tem acordo avançado com três investidores de grande porte que estão de olho na exploração do conjunto de 17 elementos químicos da tabela periódica, essenciais para fabricação de turbinas eólicas, veículos elétricos e aplicações de defesa, entre outros produtos-chave da era digital.
A MadCap, criado há menos de um ano, tem R$ 330 milhões sob gestão e a meta de chegar em R$ 1 bilhão até dezembro na estratégia de private equity, nas verticais de agronegócio e consumo. No seu portfólio de investimentos estão empresas como Oakberry, Liquid Death, Casadonna, Ease Labs, Nave Bebidas Premium entre outras.
A terceira vertical é justamente de mining fund, que é liderada por Mozart Litwinski, ex-CEO da Ferrous e ex-executivo da Vale, e conta com Elmer Salomão, ex-diretor-geral do Departamento Nacional de Produção Mineral e um dos maiores especialistas da área no País; além de Guilherme Jácome, Felipe Litwinski e Yuri Litwinski, todos com atuação no desenvolvimento de projetos no setor mineral.
O modelo de negócio criado pela MadCap é baseado em uma fórmula que mistura baixo risco, elevada capacidade técnica da equipe e diversificação de ativos, sem privilegiar um mineral crítico específico.
Ou seja, em vez de sair pesquisando oportunidades não exploradas do nosso subsolo, o LTWSK Mining Fund decidiu apostar onde já há relativa segurança de retorno, tendo em vista alguns critérios de seleção, baseados no conhecimento do terreno de seus executivos.
“Privilegiamos montar projetos em locais com direitos de descoberta prévia, baixo risco socioambiental, ou seja, distantes de comunidades indígenas e quilombolas, e com boa aceitação local, além de infraestrutura viável e competitividade de custos”, diz Jácome, ao NeoFeed.
No total, foram estabelecidos dez projetos, com materiais críticos diversificados, sem aposta em um mineral específico, mas com diferentes estágios de maturidade e evolução. Incluem projetos para exploração de terras raras, níquel, cobre, grafita, lítio e platinoides.
“É difícil elencar um mineral que vai ter uma maior rentabilidade no futuro porque o mercado hoje em dia está muito dinâmico”,prossegue Jácome.
“Há três anos era o lítio, hoje são as terras raras, daqui a pouco pode ser um novo, precisamos privilegiar os projetos com risco minimizado”, acrescenta.
O portfólio inclui desde projetos greenfield até os que já foram aprovados e estão em desenvolvimento, mas que ainda precisam avançar com alguns estudos de viabilidade técnico-econômica e licenciamento.
Segundo ele, o valor total de captação previsto, de US$ 200 milhões, será suficiente para atender os projetos que decolarem. O capital será alocado em tranches condicionadas a resultados.
Por exemplo: US$ 1 milhão inicial, com novos aportes conforme metas atingidas e aprovação de comitê, direcionando 70% a 80% do capital para projetos de maior mérito técnico e econômico.
A governança também tem regras estabelecidas. A gestora diz não estar atrás apenas de aportes financeiros, mas de experiência para desenvolver, implantar e licenciar projetos de maneira responsável.
“Nossa preferência é por controle acionável no início para conduzir gestão, incluindo participação minoritária com cadeira em conselho em situação de Capex avançado, garantindo decisões rápidas e alinhamento estratégico”, afirma Jácome.
Quanto à destinação da produção, o fundo pretende tomar decisões caso a caso, entre exportação de concentrados ou beneficiamento e refino, com visão favorável à agregação de valor localmente.
“A diversificação ajudar a reduzir volatilidade, por isso o nosso foco é fornecer minerais críticos para EUA, UE, Japão e Coreia, com ampla demanda visando a competitividade global dos projetos, de início em terras raras e cobre”, diz o especialista.
Terrabras à vista?
A proposta por trás do lançamento do LTWSK Mining Fund dá uma ideia do peso crescente do País no disputado mercado global de minerais críticos, cujo potencial pode ser dimensionado não só pelo fato de o Brasil dispor da segunda maior reserva mundial de terras raras (19% do total), a joia da coroa dos minerais críticos, mas por ter mapeado apenas 23% do seu subsolo.
Como a China responde por mais de 50% da produção de 18 minerais críticos, além de controlar grande parte do refino e processamento de terras raras, grafita, vanádio e etapas intermediárias de lítio e cobalto, esse mercado virou estratégico na guerra comercial com os Estados Unidos, gerando um assédio do presidente americano Donald Trump às reservas brasileiras.
O Brasil já conta com projetos de mineração de terras raras em Minas Gerais, Goiás, Bahia e Amazonas. Esses projetos são financiados por companhias tanto brasileiras quanto internacionais (EUA, Austrália e China). Estimativa do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) prevê um pipeline de investimentos em projetos de minerais críticos no País de cerca de R$ 100 bilhões até 2029, a maior parte com aportes de fora.
A pressão do presidente americano para atrair o Brasil como fornecedor de minerais críticos – e, de preferência, isolando a China – acabou transformando o tema inicialmente num grande debate geopolítico que já está sendo direcionado para a campanha eleitoral.
No final de março, durante evento ultraconservador nos EUA, o pré-candidato Flavio Bolsonaro fez um discurso colocando as terras raras do Brasil à disposição de Donald Trump. “Brasil é a solução para os EUA quebrarem a dependência da China por minerais críticos”, disse.
Como resposta, surgiram dois projetos de lei na Câmara dos Deputados prevendo a criação da Terrabras, uma nova empresa estatal para a cadeia de terras raras e minerais críticos do Brasil. Um é assinado pelo líder do PT na Casa, Pedro Uczai (SC), mais 73 deputados do PT, PV e PC do B, os partidos que integram a Federação Brasil da Esperança. O outro é do deputado Rodrigo Rollemberg (PSB-DF).
O Ibram e outras duas entidades, o SGB (Serviço Geológico do Brasil) e o Cetem (Centro de Tecnologia Mineral), emitiram nota na segunda-feira, 13 de abril, em que manifestam preocupação e dizem que quer trabalhar com os deputados e o governo para “construir uma política que amplie a presença do Brasil no mercado global de minerais críticos, sem repetir modelos cujos limites já são conhecidos”.
A proposta de criação da Terrabras, pelo menos por enquanto, é vista com reserva pelo próprio governo. O vice-presidente Geraldo Alckmin já criticou a proposta, afirmando que o papel do Estado deve ser regulatório e desmentiu possível movimentação da atual gestão sobre a criação da nova estatal.
A ideia de criar uma estatal em ano eleitoral é considerada um tiro no pé do governo, que já enfrenta baixa popularidade nas pesquisas de opinião. Ou seja, qualquer iniciativa só deve ir para frente no ano que vem – se o governo Lula obter a reeleição.
Fonte: NeoFeed
