Como viver sem ser obcecado por metas? Uma ex-Google tem a resposta: pense como um cientista

Como viver sem ser obcecado por metas? Uma ex-Google tem a resposta: pense como um cientista

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Anne-Laure Le Cunff, neurocientista franco-argelina, deixou seu emprego no Google após ser diagnosticada com um coágulo que ameaçava sua vida. Essa experiência a levou a refletir sobre sua rotina e a criar o blog que deu origem à plataforma Ness Labs, com cerca de 100 mil leitores.

Seu livro, “Pequenos experimentos — Práticas para viver melhor em um mundo obcecado por metas”, desafia a cultura da hiperprodutividade, propondo uma “mentalidade experimental”.

Le Cunff sugere que, em vez de metas rígidas, as pessoas adotem ciclos de ação, observação e reflexão, permitindo um aprendizado progressivo. Ela defende que a vida deve ser encarada como uma série de pequenos experimentos, onde o foco se desloca da busca por resultados fixos para a descoberta e adaptação.

Essa abordagem ajuda a reduzir o medo do fracasso e promove o crescimento pessoal em um mundo em constante mudança.

* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed

Escrever um livro não estava nos planos da neurocientista franco-argelina Anne-Laure Le Cunff — pelo menos não até deixar o Google e criar o hub de conteúdo Ness Labs. Como líder global em projetos de saúde digital, ela tinha o emprego dos sonhos: salário excelente, viagens internacionais, desafios à altura de suas habilidades e colegas interessantes. Aos 26 anos, seu futuro era promissor.

Mas o alerta soou há cerca de uma década, quando Le Cunff foi diagnosticada com um coágulo que ameaçava se deslocar para o pulmão. Ela precisava ser operada de urgência — do contrário, poderia morrer. Mesmo assim, quando viu, estava negociando com o médico a data da cirurgia para não atrapalhar o trabalho.

“Minha vida não estava terrível, mas tampouco estava ótima”, lembra. “Eu estava tão consumida pela rotina, por regras e protocolos do trabalho e pelo próximo degrau na escada hierárquica que havia perdido a capacidade de perceber qualquer outra coisa.”

Notar como se sentia foi um choque de lucidez. “Muitas pessoas conseguem construir uma vida gratificante e equilibrada em torno de um emprego no Google. Eu não era uma delas”.

Em meio à insegurança natural de quem se vê sem emprego, ela decidiu compartilhar em um blog reflexões sobre como desenvolver um modelo de crescimento pessoal e profissional mais flexível — menos amarrado a objetivos rígidos. A ideia era testar essas hipóteses na prática, aplicando-as em sua própria vida e registrando os resultados ao longo do caminho.

Com o tempo, os leitores passaram a fazer o mesmo. A comunidade cresceu e deu origem à plataforma Ness Labs — que hoje reúne cerca de 100 mil integrantes. Assim nasceu o livro que Le Cunff até então jamais imaginara escrever: Pequenos experimentos — Práticas para viver melhor em um mundo obcecado por metas.

Lançada no Brasil pela editora Objetiva, a obra desafia a cultura da hiperprodutividade. Em vez de propor rupturas radicais, Le Cunff explora o poder da aprendizagem contínua e das mudanças sutis por trás dos grandes avanços. Indo além da autoajuda conceitual, a autora oferece instrumentos concretos para lidar com a pressão por resultados.

Como neurocientista do King’s College London, ela foi treinada para conduzir experimentos em laboratório. Mas, como diz, a experimentação é muito mais do que apenas um método científico: “É assim que a natureza evolui. É assim que as espécies se adaptam. É assim que aprendemos a andar e a falar quando crianças”. Ou seja, a vida avança por um sistema baseado em tentativa, erro e correção de rota.

Para se afastar da obsessão por metas, diz a autora, é preciso adotar a “mentalidade experimental”. Ou seja, pensar como um cientista e encarar o mundo guiado pela curiosidade, pela incerteza do que será descoberto e pela disposição de rever conceitos diante de novas evidências. É organizar a vida em breves ciclos de ação, observação, reflexão e ajustes.

Alguém que esteja pensando em adotar uma nova carreira, por exemplo, pode, antes de sacramentar a decisão, conversar semanalmente com profissionais de outras áreas por alguns meses. O objetivo desse micro experimento é transformar uma dúvida ampla em informações práticas: “Gosto disso?” ou “Tenho energia para isso?” Dessa forma, o processo de escolha vira aprendizado progressivo.

“Muitas pessoas conseguem construir uma vida gratificante e equilibrada em torno de um emprego no Google. Eu não era uma delas”, diz Anne-Laure Le Cunff sobre o trabalho na big tech (Foto: Emeka Ikechi)

Com 272 páginas, o livro custa R$ 79,90 (Foto: Editora Objetiva)

A fórmula pode ser aplicada em quase todas as áreas. Está pensando em entrar em forma? Em vez de se matricular logo de cara em uma academia de alta performance, Le Cunff propõe uma experiência simples: caminhadas de dez minutos após o almoço por alguns dias. Ao longo desse período, observa-se o efeito do exercício no humor, na disposição e na rotina — e fazem-se os ajustes necessários.

Para a neurocientista, até a procrastinação pode ser usada como ferramenta de diagnóstico. Se você evita uma tarefa, vale testar mudanças: reduzir o tempo de dedicação, simplificar a atividade ou alterar o ambiente. Em seguida, observa-se o impacto de cada um desses mini experimentos.

Não se trata de criar um hábito permanente, mas de testar uma experiência sem a pretensão de controlar tudo. Apenas um exercício de curiosidade prática.

Ao encarar a vida com o olhar de um cientista, defende Le Cunff, as pessoas se libertam do pensamento binário. Na lógica experimental, não existe certo ou errado, sucesso ou fracasso. Tudo o que se faz é coletar dados e analisar.

Dessa forma, a incerteza que antes representava uma ameaça “começa a se tornar energizante”, diz a autora. Se algo não dá certo, não significa que você “fracassou”, mas que apenas obteve um dado novo — o que reduz o medo e incentiva a ação.

“Quando encaramos a vida como uma série de experimentos, deixamos de precisar acertar em tudo”, escreve a neurocientista em artigo do Ness Labs. “Em vez disso, podemos brincar. Podemos nos adaptar. Podemos aprender. E podemos crescer.”

Os planos de longo prazo, segundo a neurocientista, criam uma falsa sensação de segurança, à medida que parecem oferecer controle. Mas funcionam mal em um mundo em constante transformação. Afinal, quem sabe onde estaremos ou o que seremos daqui a cinco ou dez anos?

Em vez de tentar prever o futuro, a ideia de Le Cunff é testar o presente. Em vez de metas rígidas, criam-se “pactos” de curto prazo. Assim, o sucesso deixa de ser um destino fixo e passa a ser um processo dinâmico de descoberta pessoal — movido pela curiosidade, pela adaptação e pelo autoconhecimento.



Fonte: NeoFeed

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