“Brinco que sou o trofeuzinho da doutora Tatiana”, diz o primeiro paciente da polilaminina

"Brinco que sou o trofeuzinho da doutora Tatiana", diz o primeiro paciente da polilaminina

O tio médico mal podia acreditar: “Olhem, está mexendo… Está mexendo”. Em um misto de perplexidade e euforia, os colegas assentiam: “Não é possível!” Mas estava acontecendo. O dedão do pé direito de Bruno Drummond havia se movido.

Aos 23 anos, ele dera entrada no Hospital Copa Star, no Rio de Janeiro, em 28 de abril de 2018, vítima de um capotamento de carro. Tetraplegia por lesão medular completa — a fratura na vértebra C6, na parte mais alta da coluna, o deixara paralisado do pescoço para baixo. “Eu tinha apenas um leve movimento no ombro”, conta ele, em conversa com o NeoFeed. Como a imensa maioria das pessoas em situação semelhante à sua, o jovem estava condenado a uma vida 100% dependente.

Três semanas depois do acidente, porém, aquela mexida de dedão indicava que, com Bruno, a história poderia ser diferente.

Hoje bancário, ele foi o primeiro paciente a receber a polilaminina — a proteína desenvolvida ao longo de quase três décadas pela bióloga carioca Tatiana Coelho de Sampaio, professora e pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Dos oito participantes dos estudos pré-clínicos com a nova substância, Bruno teve a melhora mais expressiva. Em dois anos, reconquistou quase todos os movimentos. E o mais importante, a independência. Ele anda, dirige, trabalha, pratica exercícios físicos, cozinha, viaja, namora — “Brinco que sou o trofeuzinho da doutora Tatiana”.

Entre os outros voluntários, observou-se uma restauração parcial da função motora.

Na literatura médica, no primeiro ano depois do dano, de 10% a 20% das lesões medulares completas evoluem espontaneamente para incompletas — ou seja, registram algum ganho de sensibilidade e controle motor. “Uma recuperação motora funcional robusta (…) é rara”, lê-se em artigo do Handbook of Clinical Neurology.

Bruno torna-se, assim, o marco inaugural de uma aposta da ciência brasileira. Poucas vezes se chegou tão perto de um tratamento capaz de devolver (algum) movimento aos portadores de traumas graves na medula espinhal. Confirmado o avanço registrado até o momento, a inovação de Tatiana promete revolucionar a medicina.

“Aindaime inteligente”

A polilaminina é a versão sintética de uma proteína produzida naturalmente pelo organismo, a laminina. Espécie de “andaime biológico inteligente”, além de dar suporte físico para as células, ela orienta e regula o comportamento celular.

Entre suas muitas funções, está o reparo de tecidos do sistema nervoso central, entre os quais a medula espinhal.

Estudado há quase 50 anos, o composto se fragmenta fora do organismo. Tatiana, porém, conseguiu criar um método que não só mantém a molécula de laminina inteira como potencializa seus efeitos.

No microscópio, a “superproteína” estimula o crescimento dos axônios, os prolongamentos dos neurônios especializados na transmissão de impulsos elétricos do cérebro para o resto do organismo. Esses “conduítes” transportam os sinais que viabilizam o movimento e a percepção sensorial.

Assim, ao ser aplicada na área da lesão medular, a polilaminina poderia reconstruir a via de tráfego neural. E, quanto mais recente for o trauma, mais fácil será a reconexão. Bruno recebeu 1,5 mililitro do composto menos de 24 horas depois do acidente. A rapidez foi decisiva para seu desfecho.

Nada, porém, teria acontecido sem esforço. Com apoio emocional e financeiro da família, ele mergulhou em dois anos de fisioterapia intensiva.

Nos últimos meses, Tatiana e Bruno foram alçados a estrelas da ciência brasileira (Foto: Instagram @bfdrummond)

Hoje, Bruno pratica musculação e natação: “Se eu ficar sem treinar, meu corpo piora” (Foto: Instagram @bfdrummond)

A polilaminina é a versão sintética da proteína laminina, produzida naturalmente pelo organismo (Foto: Reprodução internet)

Apesar do entusiasmo em torno da polilaminina, há um longo caminho a ser percorrido até que a substância se transforme em medicamento. Um estudo piloto com apenas oito pacientes está  longe de ser representativo, pois o tamanho reduzido da amostra impede conclusões generalizáveis e robustas sobre a eficácia do tratamento.

Além disso, os efeitos da nova molécula ainda não foram publicados em revista científica, o que impede a análise da metodologia e da confiabilidade dos resultados por especialistas da área. Para se ter ideia, o aval para o início dos testes clínicos com a proteína criada na UFRJ só foi concedido pela Anvisa no início do mês.

E, seguindo as etapas previstas pela ciência, eles podem levar até uma década para serem concluídos.

“Ainda não é um feito, é uma promessa de tratamento”, tem dito Tatiana. ”No dia em que ela estiver registrada, se todo mundo voltar a andar, aí sim fizemos uma revolução.”

Bruno está otimista de que no futuro seu caso deixe de ser exceção. A seguir, trechos de seu depoimento ao NeoFeed:

“Minha família é do Rio, mas cresci em São Paulo. Em 28 de abril de 2018, meu pai, minha madrasta, meu irmão caçula e eu fomos de carro para Teresópolis comemorar o aniversário da minha avó. Perto de chegar, paramos em um posto. Quando voltamos para a estrada, deitei no banco de trás sem cinto e dormi.

Meu pai piscou ao volante. O carro bateu num poste e capotou várias vezes. Disseram que acordei preso nas ferragens, xingando porque não conseguia me mexer. Mas eu não me lembro de nada.

Fui levado ao hospital de Saracuruna [instituição pública, em Duque de Caxias]. Graças ao meu tio médico, fui transferido rapidamente para o Copa Star. Com o meu diagnóstico de tetraplegia, ele e uma tia ortopedista de coluna montaram uma equipe para cuidar de mim.

Alguém comentou que estava rolando um experimento na UFRJ com uma proteína testada em animais, sem efeitos colaterais relevantes. Eu estava inconsciente e meus tios decidiram por minha entrada na pesquisa. Não havia como eu piorar.

Menos de 24 horas depois do acidente, fui operado e recebi a polilaminina. Meu caso é uma exceção tanto pela rapidez no atendimento quanto pelo apoio e conhecimento de minha família.

Só lembro de acordar tetraplégico. Tentei mexer o corpo e nada. Só conseguia movimentar o pescoço e, de leve, os ombros. Pensei: ‘Ferrou’. Fiquei deprimido.

“Sozinha, a polilaminina não recupera nada”

Eu vivi 23 anos 100% saudável, sempre fui superativo, fazia musculação desde os 14 anos, gostava de sair com os amigos e, do nada, não me mexia mais. Nos primeiros dias, só queria tomar Rivotril [ansiolítico com propriedades sedativas] e dormir.

Mas sempre tive cabeça leve. Estava num hospital de ponta, cercado de família e amigos. Uma semana depois, já tirava onda e fazia piada. Ser positivo ajudou bastante.

Três semanas após o acidente, meu tio viu meu dedão mexer. Pediram para repetir. Eu consegui. Fizeram festa. Eu provocava: ‘É só o dedão’. Mas ali estava a esperança: se o sinal saiu do cérebro e chegou ao pé, havia um caminho aberto. Todos comemoraram.

No Copa Star, o primeiro objetivo foi sentar sem cair. Demorou dois meses. Eu ficava todo torto, mas me segurava sem apoio. Voltei para São Paulo e fiquei mais dois meses internado na AACD. Comecei a fazer fisioterapia intensiva, de manhã e à tarde.

Com a alta, fui viver com meu pai. Ele adaptou a casa para mim. De manhã, ele me levava para a AACD e à tarde para uma clínica particular de fisioterapia, onde eu era atendido por um especialista em lesão medular. Com o perfil de “coronelzão”, meu pai não me deixava faltar.

Reaprendi os movimentos como um bebê. Primeiro, deitado no chão, a jogar as pernas de um lado para o outro. Depois, de quatro, engatinhei. Em seguida, ensaiei ficar de pé e, adiante, os primeiros passos. Em oito meses, eu estava andando com bengala ou andador — torto, mas andava.

Minha condição física anterior ajudou. Perdi 20 quilos, mas tinha memória muscular e consciência corporal. Foram dois anos de dedicação total. Cada movimento recuperado era motivo de festa.

Hoje sou 100% independente. Cozinho, dirijo, trabalho, viajo. Recuperar a independência depois de perdê-la é indescritível. Passei a dar outro valor para a vida — sobretudo às pequenas coisas.

Tenho algumas sequelas. Os movimentos dos dedos das mãos são um pouco limitados — a da esquerda é pior. Tenho também menos sensibilidade no antebraço, sobretudo no esquerdo. Perdi muita força na perna esquerda. Se eu tiver de levantar agora e sair correndo, ela dá um espasmo e eu vou cair. Se, no entanto, eu estiver com o corpo aquecido, até consigo dar um trotezinho.

Se eu ficar sem treinar, meu corpo piora. Não faço mais fisioterapia, mas faço musculação, natação… manter meu corpo ativo é essencial.

Ao longo desse processo, tive dúvidas. Minha recuperação foi efeito da polilaminina ou eu teria me recuperado naturalmente?

Com o tempo, vendo casos semelhantes evoluírem mais lentamente, passei a acreditar que ela foi, sim, fundamental.

Mas, sozinha, a polilaminina não recupera nada. Fazer fisioterapia, dar estímulos para que os movimentos aconteçam é condição sine qua non da recuperação.

E quanto ao uso da polilaminina para tratamento de lesões crônicas? Ela pode ser usada em pacientes com lesão incompleta, que mantêm alguma sensibilidade?  Agora, com o início dos testes clínicos, as respostas para todas as perguntas começarão a surgir.

Eu acho que eu cheguei ao meu limite máximo da minha recuperação. Em geral, o ápice da recuperação de uma lesão medular acontece cerca de dois anos, dois anos e meio depois do acidente. Mas eu não gosto de usar a palavra ‘nunca”.



NeoFeed

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