A viagem de 13.262 quilómetros levou-o através de 21 países, transformando um feito físico extraordinário num poderoso acto de activismo, destinado a confrontar o racismo e a remodelar a forma como a migração é entendida.
Nascido em Uganda e criado no Reino Unido, Deo começou a correr para cuidar da saúde. Com o tempo, essa disciplina pessoal transformou-se numa jornada de propósito, ligando resistência com identidade, protesto e esperança.
Ponto de viragem
Em 2020, um momento de ajuste de contas global em torno da injustiça racial – o assassinato de George Floyd em Minneapolis – tornou-se um ponto de viragem para Deo. Ele percebeu que sua corrida poderia servir a um propósito além da resistência.
“Pensei: ‘Tenho que fazer algo a respeito. Seja pequeno ou grande, quero usar minha corrida para criar mudanças e falar contra a injustiça racial'”, explicou ele.
Essa convicção levou-o a correr dez quilómetros todos os dias durante 381 dias, marcando cada dia do Boicote aos Autocarros de Montgomery, um momento crucial no movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos.
Ele disse a si mesmo: “Vou continuar fazendo isso enquanto puder, porque é assim que a mudança acontece”.
Dia após dia, Deo avançou, transformando a resistência física numa forma de ativismo destinada a enfrentar o racismo e a amplificar as conversas sobre migração e justiça.
Reconstituindo rotas de migração
A partir deste compromisso, Deo partiu para correr da Cidade do Cabo a Londres, reconstituindo simbolicamente as primeiras rotas de migração da humanidade a partir de África.
O caminho à frente era longo e árduo. Escalando montanhas, atravessando desertos e percorrendo reservas de vida selvagem, Deo percorreu paisagens que mudavam constantemente ao seu redor.
“É incrível estar em movimento. Então, de repente, vejo elefantes e crianças começando a correr ao meu lado”, ele compartilhou.
Barreiras e restrições
Ao longo do caminho, Deo testemunhou como a migração pode ser complexa e restritiva, especialmente para pessoas deslocadas por impactos climáticos, pressão económica ou conflitos.
Ele viu como as vias regulares limitadas e as restrições de circulação deixam muitas pessoas efetivamente impossibilitadas de se deslocarem dentro das suas próprias regiões, prendendo-as em situações inseguras ou incertas e cortando rotas para a segurança.
“Algumas pessoas acabam detidas simplesmente por tentarem fugir de conflitos ou porque são vistas como estranhas. Mesmo quando têm a documentação correta, ainda podem ser detidas.”
Quanto mais eu viajava ao longo da rota migratória, mais era visto como um migrante irregular.
O próprio Deo enfrentou barreiras semelhantes. A certa altura, ele foi detido apesar de possuir os documentos corretos. Noutras áreas, foi forçado a desviar a sua viagem devido a conflitos ou acesso restrito.
À medida que viajava para o norte, em direcção à Europa, o escrutínio intensificou-se.
“Quanto mais eu viajava ao longo da rota migratória, mais era visto como um migrante irregular. As pessoas chamavam a polícia simplesmente porque viam alguém que pensavam não pertencer a passar pela sua área”, explicou.
Atravessando alguns dos terrenos mais espectaculares e implacáveis do mundo, Deo conheceu África a pé, onde a natureza e o movimento moldaram cada quilómetro da sua viagem.
Apoio comunitário
Apesar dos desafios, a jornada de Deo foi sustentada pelo apoio da comunidade. Ao longo do caminho, corredores locais, estranhos e apoiadores online juntaram-se a ele. Esses momentos de esforço compartilhado e solidariedade o fizeram continuar.
“Sem esse apoio comunitário, eu não teria tido sucesso nesta jornada. Foi o que realmente lhe deu sentido”, disse ele.
Sua jornada nunca foi apenas uma questão de resistência. Tratava-se de recuperar a história da migração – uma história enraizada na resiliência, no progresso humano e no desenvolvimento.
“As pessoas mudam-se por muitas razões e cada viagem conta uma história humana”, enfatizou Deo.
Olhando para o futuro, ele planeia continuar a usar a sua plataforma como forma de ativismo, continuando a falar sobre migração, pertença e humanidade partilhada. Como ele diz: “Não se limite. Acredite no seu poder de criar mudanças”.
Fonte: VEJA Economia
