A ressalva foi feita em 24 de março de 2025, quatro dias antes de a proposta ser aprovada pelos conselheiros do banco estatal do Distrito Federal e de a operação ser anunciada ao mercado. O alerta, feito em parecer obtido pela reportagem sobre a legalidade do negócio, afirma que os indicadores de liquidez eram cruciais e sugeriu que eles fossem levados em conta na decisão sobre a compra.
“Há que se ressaltar que a observância do índice de liquidez e do índice de Basileia [exigência mínima de capital] é crucial nas contratações efetuadas pelas instituições financeiras, pois ambos são indicadores essenciais para garantir a solidez e a estabilidade do sistema financeiro. Desta forma, sugere-se que sejam os índices apontados considerados quando da deliberação da proposta”, afirma o parecer assinado pelo diretor jurídico do BRB, Jacques Veloso de Melo.
Na mesma semana, em 28 de março de 2025, o conselho de administração aprovou por unanimidade a operação. Naquele momento, as conversas com o Master já haviam iniciado quase três meses antes (em 3 de janeiro de 2025) -quando o BRB recebeu uma carta do banco de Vorcaro propondo a “discussão da possibilidade de negócios conjuntos”.
Também fazia mais de dois meses que o BRB havia criado um grupo de trabalho para avaliar parcerias com o Master que poderiam resultar em aquisição de participação acionária.
No parecer, a diretoria jurídica concluiu não ver ilegalidades na operação de aquisição desde que fossem seguidas as recomendações. “Por todo o exposto, não se vislumbram ilegalidades de ordem jurídico-formal na proposta […], observadas as orientações constantes neste opinativo”, afirma o documento assinado pelo diretor.
Em fato relevante que anunciou a pretendida aquisição, divulgado no mesmo dia da aprovação pelo conselho, o BRB afirmou ao mercado que o acordo tinha entre seus pilares estratégicos “solidez, liquidez, capital e rentabilidade do novo conglomerado” que seria formado.
O banco disse ainda que a conclusão do negócio estava sujeita à conclusão satisfatória da diligência do BRB sobre ativos e passivos, a uma reorganização do Banco Master e à aprovação por parte das autoridades.
O Banco Central vetou a conclusão do negócio em setembro de 2025. Como a Folha de S.Paulo mostrou, o risco de sucessão foi uma das razões para a negativa. Isso acontece porque o BRB teria que assumir todas ou grande parte das operações não conhecidas do Master, e o banco do governo do Distrito Federal poderia não ter patrimônio suficiente para fazer frente ao risco.
Procurado nesta terça-feira (3) para comentar o alerta do departamento jurídico, o BRB não respondeu.
Quando o BC determinou a liquidação do Master, em novembro de 2025, o banco de Vorcaro tinha apenas R$ 4 milhões em caixa -algo considerado anormal para uma instituição financeira de médio porte. As informações foram fornecidas em depoimento dado em dezembro pelo diretor do BC Ailton de Aquino, que afirmou também ter certeza de que o BRB deveria ter sido capaz de identificar por conta própria problemas nas carteiras de crédito que tinha adquirido do Master.
A Polícia Federal investiga o repasse pelo Master ao BRB de R$ 12,2 bilhões em operações de crédito fraudadas.
Conforme mostrou a Folha de S.Paulo, o Master tinha apenas R$ 22,9 milhões em depósitos no BC na data da liquidação, menos de 1% do montante dos R$ 2,5 bilhões exigidos do conglomerado.
O ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa (que estava no cargo na época da negociação), foi questionado em depoimento sobre por que a operação foi em frente mesmo com a existência de processos na CVM (Comissão de Valores Mobiliários) ligados ao Master e diante da crise de reputação do banco privado no mercado.
“Passamos a tomar conhecimento disso [problemas na CVM] lendo o inquérito. Nem todas aquelas informações são públicas”, disse o executivo em dezembro.
As informações sobre processos na CVM são em parte públicas e podem ser verificadas no site da autarquia. Estão disponíveis para pesquisa, por exemplo, informações sobre processos anteriores em que os donos do Master firmaram acordos para escapar de julgamentos, conforme mostrou a Folha de S.Paulo.
Também está disponível a informação que um dos então sócios do Master, Luiz Antônio Bull (sócio de Vorcaro no Master), responde a outro processo na comissão por fraude em fundo de investimentos.
O caso ainda não foi julgado.
Costa também foi questionado no depoimento se o dono do Master, Daniel Vorcaro, havia manifestado em algum momento preocupação sobre a liquidez do banco. Costa respondeu afirmativamente.
“Muitas vezes, em conversas, ele [Vorcaro] falou ao longo do processo que estava preocupado, que era importante que tivesse uma decisão [sobre a compra]. Mas não era uma decisão nossa, era do Banco Central”, disse o ex-presidente do BRB.
Apesar disso, Costa disse que a tentativa de compra -barrada pelo BC- foi respaldada por análises técnicas. “Foram 11 áreas internas no banco que se posicionaram. Existe um rol de documentos produzidos demonstrando viabilidade, estratégia, análise de ativos e passivos. Foram feitas diligências contábeis, de tecnologia financeira, trabalhista e de passivos contingentes”, disse.
