O “day after” da guerra no Irã: exportadores brasileiros mudam rota para driblar bloqueio de Ormuz

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Com a intensificação dos ataques dos EUA e Israel ao Irã, as exportações brasileiras enfrentam riscos, especialmente com o possível fechamento do Estreito de Ormuz. A indústria de carne de frango já busca rotas alternativas via Mar Vermelho e Omã, que podem aumentar o tempo de transporte em até duas semanas e elevar custos.

O Brasil, maior exportador de carne de aves, está em contato com importadores para minimizar impactos, mas já há 12 mercados suspensos, incluindo os Emirados Árabes Unidos e Catar.

Além disso, a crise no fornecimento de gás natural, crucial para a produção de fertilizantes, pode afetar a agricultura global, com riscos de queda na produção de alimentos.

O Oriente Médio representa 30% das exportações brasileiras de carne de frango, e o Irã é um importante comprador de produtos agrícolas, o que torna a situação ainda mais crítica.

* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed

Brasília – Com o agravamento dos ataques de Estados Unidos e Israel ao Irã, as exportações brasileiras começam a ficar mais ameaçadas e a indústria já traça um roteiro para minimizar os possíveis impactos causados principalmente pelo fechamento do Estreito de Ormuz, importante canal portuário do Oriente Médio.

As empresas de carne de frango, por exemplo, já discutem com o governo brasileiro a mudança de rotas logísticas, em busca de outros portos via Mar Vermelho e Omã. As rotas alternativas podem aumentar em até duas semanas o tempo de transporte até o destino final dos contêineres e elevar custos, porém, os exportadores alegam que é uma saída viável comercialmente para que o Brasil, maior exportador de carne de aves do mundo, não deixe de fazer embarques.

“É uma crise que já está no nosso radar, mas dá para manejar e hoje também podemos passar pelo Mar Vermelho, um caminho que antes não era viável. O Canal de Suez está fechado, é verdade, mas também dá para contornar. Leva de 10 a 15 dias a mais e aumenta o custo, mas não muito”, disse ao NeoFeed o presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Ricardo Santin.

De acordo com ele, a situação, por enquanto, exige cuidado e pode causar demora. “Falei pessoalmente com o ministro [Carlos Fávaro, da Agricultura] e ele disse que vai fazer de tudo pra ajudar”, acrescentou Santin.

Quase 50% das exportações brasileiras de carne de frango para o Oriente Médio passam por Ormuz chegando a movimentar até 250 contêineres por dia, segundo Santin.  Mas ele pondera que os exportadores do Brasil já estão em contato com importadores de rotas alternativas na Ásia e África para minimizar esses possíveis impactos. No momento, a entidade não tem notícia de navios parados para desembaraçar cargas de frango brasileiro.

Para redirecionar as rotas é preciso que o Ministério da Agricultura agilize trâmites burocráticos, como a troca de Certificado Sanitário Internacional (CSI), documento obrigatório e expedido pelo país importador após acordo comercial que permite as exportações provenientes de determinado país.

Esse processo administrativo junto ao ministério é o mesmo que foi feito durante a gripe aviária do ano passado, quando 28 mercados chegaram a ficar fechados para a carne de frango brasileira. Agora, com a guerra no Irã já foram identificados 12 mercados suspensos, dos quais três estão totalmente fechados (Emirados Árabes Unidos, Catar e Kuwait) e outros nove, que contariam com essas rotas alternativas.

A BRF inclusive possui uma unidade industrial de carne de frango nos Emirados Árabes, no entanto, Santin garante que ela não será afetada, uma vez que já atende os mercados regionais normalmente.

O Oriente Médio absorve cerca de 30% das exportações brasileiras de carne de frango, equivalentes a 1,5 milhão de toneladas. O Brasil é um destacado produtor e exportador mundial de carne halal, que atende a rígidos padrões islâmicos de produção.

Agro em risco

De acordo com a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), mais conhecida como bancada do agronegócio no Congresso e que reúne dezenas de entidades do setor, “ainda que a duração e a intensidade das tensões sejam incertas, a instabilidade em rotas logísticas estratégicas e em mercados energéticos tende a repercutir rapidamente sobre cadeias globais de produção e comércio”.

Somente no ano passado, o Brasil exportou US$ 12,4 bilhões em produtos agrícolas para países do Oriente Médio. Apenas o Irã respondeu por 23,6% desse total exportado, sendo o principal comprador desses produtos agropecuários brasileiros na região nesse período, com US$ 2,9 bilhões, seguido por Arábia Saudita (23,3%) e Emirados Árabes Unidos (20,4%).

A região, no entanto, representou apenas 7,4% das exportações brasileiras em 2025, principalmente de carne de frango, milho, açúcar, carne bovina e soja.

Principal foco do conflito, o Irã também foi o principal importador do milho brasileiro no ano passado, com 9 milhões de toneladas. Outras matérias-primas agrícolas produzidas pelo Brasil e compradas pelos iranianos são a soja, com 1,3 milhão de toneladas, e o açúcar, com 499 mil toneladas, por exemplo.

“Nesse contexto, um eventual comprometimento prolongado dos fluxos comerciais para a região pode gerar riscos relevantes”, afirma a FPA em nota.

Fertilizantes

Mas não é só o agronegócio brasileiro que sofre com o bloqueio do Estreito de Ormuz. O fechamento do canal também está causando um efeito-cascata para outras cadeias de suprimentos além do petróleo.

Danos à infraestrutura e instalações produtivas no Oriente Médio já afetam setores como fertilizantes, petroquímica, manufatura e mineração, reduzindo a oferta global desses insumos.

O ataque iraniano à usina de gás natural no Catar – o segundo maior fornecedor mundial de gás natural liquefeito – dobrou o preço do produto e afetou a Europa, num momento em que um inverno particularmente rigoroso esgotou as reservas de gás europeias.

Os estoques em todo o bloco estão com menos de 30% de sua capacidade, de acordo com dados da Gas Infrastructure Europe, em comparação com uma média de cinco anos de cerca de 45% para esta época do ano. As reservas em países como Holanda, Suécia, Croácia e Letônia estão especialmente baixas.

A crise no fornecimento de gás natural está impactando em outro setor-chave da economia global, os fertilizantes. O Oriente Médio é um dos maiores produtores de fertilizantes do mundo, e o Estreito de Ormuz é uma rota marítima crucial para o escoamento. Cerca de 35% das exportações globais de ureia passam por essa hidrovia.

O gás natural é a principal matéria-prima utilizada na produção de fertilizantes nitrogenados, como o amoníaco e a ureia, o que significa que a subida dos preços do gás pode aumentar rapidamente os custos de produção.

Especialistas do setor, por sua vez, advertem para o impacto no baixo fornecimento de fertilizantes na produção global de alimentos. A demora para escoar os insumos pode levar a uma queda de 50% na primeira safra de colheita de alimentos.

A interrupção está ocorrendo em um momento particularmente sensível para os agricultores. Em partes da Europa e do hemisfério norte, os produtores estão entrando na temporada de aplicação de fertilizantes da primavera, quando compram e espalham nutrientes que determinam a produtividade das colheitas mais tarde no ano.



NeoFeed

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