De Olímpia para o mundo, a exposição “Terra” marca o retorno da artista à sua cidade natal com uma obra que une ancestralidade, afeto e sustentabilidade
Há artistas que pintam telas, e há aqueles que pintam a alma. Zilah Garcia pertence a essa segunda categoria. Nascida em 1967, em Olímpia (SP), e hoje radicada em São Paulo, ela volta à sua terra natal com a exposição “Terra”, uma mostra que é mais do que arte, é um reencontro com suas origens, suas memórias e suas raízes profundas no sertão brasileiro.
A exposição, com curadoria do historiador e crítico de arte Agnaldo Farias, abre nesta sexta-feira, 27 de fevereiro, às 18h, na Estação Cultural de Olímpia, e marca um momento especial na trajetória da artista.
Zilah constrói uma narrativa poética e sensível, inspirada no clássico “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, obra que resgatou memórias adormecidas de sua infância, as histórias contadas pelo avô, migrante nordestino que deixou o sertão em busca de uma vida mais digna.
Em “Terra”, Zilah propõe um diálogo entre literatura, história e identidade, costurando afetos e reconstruindo memórias. O solo rachado pela seca se torna símbolo da resistência e da força que moldam o Brasil profundo.
Entre a terra e o tempo
A série que dá nome à exposição nasce da própria terra. Zilah coleta amostras de solo de diferentes regiões do país, triturando pedras e transformando-as em uma massa artesanal que aplica sobre as telas. O resultado é uma textura viva, um craquelado que respira e se expande, lembrando a aridez do sertão e, ao mesmo tempo, a potência que brota da escassez.
A artista, que já explorou técnicas como a aquarela e o afresco em Firenze, na Itália, traz agora um olhar maduro e experimental. Seu trabalho vai além do tangível: é psicológico, emocional e espiritual. Zilah não pinta apenas paisagens, ela cria pontes entre o humano e o natural, entre o passado e o presente.

Uma trajetória de coragem e reinvenção
Antes de se dedicar integralmente à arte, Zilah construiu uma sólida carreira no setor têxtil e de moda, tornando-se referência nacional em produção de costura. Foram 28 anos de liderança e excelência, sempre mantendo a arte como farol e inspiração.
Nos últimos anos, decidiu seguir o chamado mais profundo: o da criação. Estudou no Parque Lage, onde cursa “Desenho e Experimentação” com Valerio Mantovani e “Isso é Arte” com Daniela Machado, um processo que ampliou suas fronteiras e consolidou sua linguagem estética.
Sua pesquisa artística toca em temas urgentes, como a ecoansiedade e a relação do homem com o planeta, convidando o público à reflexão: como transformar o lixo (material e psicológico)em algo belo e significativo?
Arte como manifesto
Em “Terra”, Zilah faz da arte um manifesto silencioso, mas poderoso. Cada obra carrega a força da ancestralidade, a memória de um Brasil que resiste e floresce. Ao revisitar o sertão nordestino, a artista refaz a trajetória de seus antepassados e, com isso, reconstrói parte de sua própria identidade.
A mostra reúne cerca de 20 obras, nas quais se entrelaçam memória afetiva, sustentabilidade e inovação técnica. Zilah, em um gesto simbólico e generoso, garimpou 200 exemplares do livro “Os Sertões” em diferentes edições e os distribuiu aos convidados na abertura, como quem compartilha um pedaço da própria história.
Apresentar sua primeira exposição individual em Olímpia é, para Zilah Garcia, um sonho que se torna realidade. “Depois de meses de planejamento, o grande dia finalmente chegou”, escreveu ela em suas redes sociais.
E é de fato um grande dia, não apenas para a artista, mas para toda a cidade que a viu nascer. Olímpia celebra não só o talento de uma filha ilustre, mas também a força de uma mulher que transformou sua trajetória em arte e sua arte em um grito de amor pela terra.
“Terra” é mais que uma exposição. É um mergulho profundo na essência do Brasil, visto pelos olhos e pela alma de Zilah Garcia, uma artista que entende que a verdadeira arte nasce daquilo que somos, daquilo que herdamos e daquilo que escolhemos cultivar
Exposição “Terra” – Zilah Garcia
Local: Estação Cultural de Olímpia – Rua Cel. José Medeiros, 477 – Olímpia/SP
Abertura: sexta-feira, 27 de fevereiro, às 18h
Curadoria: Agnaldo Farias
