MEMÓRIA: Ted Turner, o homem que moldou o modo como o mundo consome notícia

MEMÓRIA: Ted Turner, o homem que moldou o modo como o mundo consome notícia

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Ted Turner, empresário americano e fundador da CNN, morreu aos 87 anos, deixando um legado significativo na mídia, esportes e filantropia.

Em 1980, ele revolucionou a televisão ao lançar a primeira emissora de notícias 24 horas, desafiando as grandes redes e enfrentando perdas financeiras iniciais. Sua persistência redefiniu o jornalismo televisivo, com a CNN se tornando uma fonte crucial de informações em eventos históricos, como a Guerra do Golfo.

Turner, que começou sua trajetória empresarial após a morte de seu pai, expandiu seu império ao adquirir equipes esportivas e investir em tecnologia de comunicação.

Além de seus feitos empresariais, ele foi um ativista, doando um bilhão de dólares à ONU e criando reservas naturais em suas vastas propriedades. Conhecido por sua personalidade explosiva e ousada, Turner também enfrentou desafios pessoais, incluindo três casamentos e um diagnóstico de demência. Ele deixa cinco filhos, 14 netos e dois bisnetos

* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed

Em 1998, em um artigo da Reader’s Digest, o empresário americano Ted Turner declarou, sem modéstia, ao jornalista e escritor Dale Van Atta: “Estou tentando estabelecer o recorde absoluto de realizações de uma pessoa em uma única vida. E isso me coloca em uma companhia bastante ilustre: Alexandre, o Grande; Napoleão; Gandhi; Cristo; Maomé; Buda; Washington; Roosevelt; Churchill”.

O autoelogio trazia, claro, uma enorme dose de exagero, mas é impossível negar a influência de Turner. Em 1980, ao fundar a CNN, o primeiro canal de notícias 24 horas do planeta, ele ajudou a redefinir não apenas a televisão, mas a forma como o mundo consome informação.

Ao morrer na quarta-feira, 6 de maio, aos 87 anos, Turner deixa um legado para muito além do império de mídia — exatamente como ele pretendia. Sua marca está também nos esportes, na filantropia e na sociedade americana do final do século 20.

“Sempre fui mais aventureiro do que homem de negócios”, disse certa vez ao jornal The New York Times, resumindo uma trajetória frequentemente pautada por apostas improváveis, crises financeiras e reviravoltas espetaculares.

Quando lançou a CNN, a ideia parecia absurda para grande parte da indústria. As grandes redes, como ABC, CBS e NBC, dominavam o horário nobre, e a noção de que o público acompanharia notícias contínuas era vista como inviável — sobretudo com um orçamento relativamente baixo.

Nos dois primeiros anos, a emissora chegou a perder até US$ 2 milhões por mês, segundo o New York Times. Os concorrentes zombavam do projeto, chamando a rede de “Chicken Noodle Network“.

A comparação com canja de galinha, prato típico de Atlanta. Era uma forma de ironizar uma produção considerada caseira e de baixo orçamento. Durante anos, a CNN operou no vermelho.

Mas Turner persistiu. “Turner não dava ouvidos”, escreveu o jornalista britânico Malcolm Gladwell na revista The New Yorker em 2010. Essa teimosia acabou redefinindo o jornalismo televisivo.

Na libertação dos reféns americanos no Irã, em 1981, a CNN estava lá. No acidente do ônibus espacial Challenger, cinco anos depois, também. Na Guerra do Golfo, em 1991, idem. Estava lá, moldando ao vivo e em tempo real a experiência global de acompanhar a história. E, assim, a canja de galinha ficou restrita aos cardápios de Atlanta.

Até o início das transmissões da CNN, os governos precisavam aguardar relatórios de inteligência dos campos de batalha para se informar — um processo complicado e demorado. “Aprendo mais com a CNN do que com a CIA”, disse o presidente George H.W. Bush, segundo relato do New York Times.

O império de Turner começou a ser construído em 1963, com a morte de seu pai. Naquele ano, Robert Edward Turner Jr. cometeu suicídio depois de contrair dívidas elevadas para expandir a empresa de outdoors e lutar contra a dependência de álcool e drogas.

A experiência marcaria profundamente o filho, à época com 24 anos. Como contaria à revista Time, anos depois, ele se sentiu profundamente sozinho: “Eu contava com ele para julgar se eu era ou não um sucesso”.

Mar agitado

Contra todas as recomendações, Turner recusou-se a vender o negócio da família. Em vez disso, transformou o negócio e partiu para a expansão.

Comprou uma emissora falida em Atlanta em 1970 e a batizou WTCG — iniciais de Turner Communication Group, mas que ele costumava dizer que significava Watch This Channel Grow, ou “Assista a esse canal crescer”, em tradução livre. Em uma época em que poucos acreditavam nos novos satélites de comunicação, Turner investiu na tecnologia e transformou o pequeno mercado da rede em um sistema que cobriria o país inteiro.

Para preencher as lacunas na programação da WTCG, ele adquiriu o time de beisebol Atlanta Braves e o de basquete Atlanta Hawks. Era muito mais barato transmitir os jogos do que comprar ou produzir outras atrações. No final, a aquisição da equipe de beisebol se revelou um ótimo negócio. Em 1976, pagou US$ 500 mil em dinheiro e US$ 8 milhões a juros anuais de 6% durante dez anos. Quarenta anos depois, o Atlanta Braves valia quase US$ 1,2 bilhão.

Enquanto isso, o empresário velejava. Uma paixão adquirida ainda na infância, no Savannah Yacht Club, em sua cidade natal. Por duas vezes, em 1970 e em 1973, foi eleito o iatista do ano pela Associação de Vela dos Estados. Em 1977, venceu a America’s Cup — uma ambição da juventude.  Dois anos depois, participaria da Fastnet Race, organizada pelo Royal Ocean Racing Club, no Mar da Irlanda.

Por causa dos ventos fortes, muitos barcos afundaram e 15 esportistas morreram. Dos cerca de 300 inscritos, apenas 85 terminaram a regata. Turner foi o primeiro colocado. “Como qualquer experiência, sempre que você a supera, se sente melhor”, disse na ocasião. “Não estamos falando das outras pessoas que morreram, mas ser capaz de enfrentar tudo isso e sair vitorioso é emocionante. Navegar em mar agitado é a essência do esporte.”

O magnata gostava de agitação também em terra firme. Direto e frequentemente explosivo, era chamado de “Boca do Sul”, por causa dos autoelogios, da franqueza e das declarações polêmicas. Teve três casamentos. O último deles, com a atriz e ativista Jane Fonda, durou de 1991 a 2001 e terminou por causa da infidelidade dele.

Turner foi também um ativista. Envolveu-se em campanhas pelo fim das armas nucleares e das minas terrestres. Um dos maiores proprietários de terras dos Estados Unidos, em parte de seus 2 milhões de acres, criou reservas naturais. Em 1997, doou à ONU US$ 1 bilhão, distribuído ao longo de uma década com o objetivo de ajudar refugiados e crianças e combater algumas das doenças mais prevalentes no mundo.

Em 2018, foi diagnosticado com demência por corpos de Lewy, um distúrbio neurodegenerativo progressivo. O empresário deixa cinco filhos, 14 netos e dois bisnetos.

Poucas descrições sobre a personalidade de Turner são tão precisas quanto a de Malcolm Gladwell na The New Yorker: “Ele era o ‘Capitão Corajoso’, o homem com nervos que venceu a America’s Cup, desafiou as grandes emissoras, casou-se com uma estrela de cinema e se tornou bilionário (…) Dava a impressão de assinar contratos sem nem olhar para eles. Era um beberrão, um gritador, um homem de impulsos e desejos incontroláveis, a personificação do empreendedor que assume riscos”.



Fonte: NeoFeed

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