A conferência, organizada pela ONU-Habitat em conjunto com o Azerbaijão, começa no domingo, 17 de maio, e vai até sexta-feira, 22 de maio. Reunirá líderes mundiais, prefeitos, especialistas em planejamento urbano, bem como representantes de governos, do setor privado, da sociedade civil e de organizações internacionais.
Um objetivo ambicioso: abrigar o mundo
O tema do fórum é um apelo à ação: Habitando o Mundo: Cidades e Comunidades Seguras e Resilientes. Segundo a ONU, quase 2,8 mil milhões de pessoas vivem hoje em condições de habitação inadequadas, enquanto mais de 300 milhões não têm casa alguma. Com a expectativa de que perto de 70 por cento da população mundial viva em cidades até 2050, a crise deverá apenas intensificar-se.
Em entrevista ao UN Video, a chefe do UN-Habitat, Anacláudia Rossbach, descreveu a situação como uma “crise habitacional global”.
“Esta crise tem sido há muito tempo mais grave e estrutural no Sul Global, mas agora também se faz sentir no Norte Global.”
De acordo com a Sra. Rossbach, o aumento do custo de vida tornou-se um problema importante, enquanto as crises internacionais, incluindo a guerra no Médio Oriente e os riscos relacionados para as cadeias de abastecimento globais, agravam ainda mais a situação.
Mais do que apenas uma casa
A crise vai muito além dos tijolos e da argamassa. A habitação é cada vez mais vista como uma pedra angular da dignidade humana, da resiliência urbana e até da estabilidade global. Os seus impactos repercutem em todos os aspectos da vida, alerta a ONU – sobrecarregando os sistemas de saúde e de educação, enfraquecendo as economias e desgastando o tecido social.
Francine Pickup, vice-diretora do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas e chefe da delegação do PNUD ao WUF13, disse que a agência espera usar o fórum em Baku para fortalecer parcerias na promoção de soluções urbanas integradas que combinem habitação, resiliência climática, governança e financiamento local.
“Esta crise imobiliária global em que nos encontramos não é principalmente um problema de construção”, disse Pickup. “Precisamos ir além de olhar para a construção de casas e moradias e olhar para o cenário urbano e olhar para a questão habitacional como um problema complexo.”
Assentamentos informais: desafio e oportunidade
Um dos temas centrais do fórum será o rápido crescimento dos assentamentos informais, ou áreas não planeadas onde os residentes não têm direito legal à terra e vivem em habitações precárias.
Hoje, cerca de 1,1 mil milhões de pessoas vivem em bairros de lata e as projecções sugerem que esse número poderá aumentar em mais dois mil milhões nas próximas décadas. As crianças são especialmente vulneráveis: estima-se que entre 350 e 500 milhões de crianças vivam em bairros de lata.
Ao mesmo tempo, a ONU-Habitat apela a uma mudança nas abordagens que encaram os assentamentos informais apenas como um problema. Em muitos casos, esses bairros são a única forma de milhões de pessoas conseguirem abrigo nas cidades.
Reconstruindo após conflito
Outra questão que se impõe, num contexto de conflitos e crises em curso, é a forma como as cidades recuperam após guerras e desastres. Até ao final de 2022, mais de 123 milhões de pessoas tinham sido deslocadas à força em todo o mundo, segundo a ONU, com mais de 60% a procurar refúgio em áreas urbanas.
Perder uma casa é muito mais do que perder um telhado. Pode significar a ruptura de comunidades, a perda de meios de subsistência e um profundo sentimento de insegurança. Em Baku, o foco não será apenas fornecer abrigo, mas também reconstruir vidas – desde a restauração de bairros e a criação de empregos até ajudar as comunidades a encontrar um caminho de regresso à normalidade.
Ela acrescentou que as discussões em Baku também se concentrarão na reconstrução e recuperação em países afectados por guerras e catástrofes.
“Há uma necessidade urgente não só de fornecer habitação, mas também de reconstruir as comunidades de forma inclusiva, resiliente e sustentável”, afirmou a Sra.
Choques climáticos
Outra linha de discussão se concentrará nas questões climáticas. Os especialistas alertam que a crise climática está a tornar-se rapidamente um dos principais impulsionadores da crise habitacional global. Eventos climáticos extremos – incluindo inundações, tempestades e incêndios florestais – deslocaram mais de 20 milhões de pessoas só em 2023. As estimativas sugerem que as alterações climáticas poderão destruir 167 milhões de lares em todo o mundo até 2040.
Ao mesmo tempo, os próprios edifícios continuam a ser uma das maiores fontes de emissões: o setor da construção é responsável por 34 por cento das emissões globais de CO2 relacionadas com a energia. O fórum procurará, portanto, respostas para duas questões interligadas: como construir mais habitações e, ao mesmo tempo, evitar um agravamento da crise climática.
“O tema do Fórum é habitação. Exploraremos a habitação sob muitas perspectivas diferentes – incluindo informalidade, finanças, sustentabilidade e resiliência”, disse a Sra. Rossbach.
“Hoje, devemos estar plenamente conscientes do impacto das alterações climáticas e da pressão que estas colocam sobre os sistemas habitacionais. O que construímos, como construímos e onde construímos, tudo tem consequências para os recursos naturais, a resiliência climática e a capacidade das comunidades para resistir a choques e catástrofes.”
Bogotá, na Colômbia, foi selecionada pela ONU-Habitat como cidade anfitriã oficial do Dia Mundial das Cidades de 2025 – o principal evento das Nações Unidas sobre urbanismo sustentável.
Um esforço compartilhado
Um tema central que atravessa o fórum é a necessidade de acção colectiva – reunindo todos, desde governos e autoridades locais até universidades e comunidades de base.
“O Fórum Urbano Mundial é a nossa maior plataforma para reunir as partes interessadas”, disse a Sra. “Esperamos ver uma comunidade forte e diversificada reunida em Baku e emergir do WUF13 com uma coligação global mais forte para enfrentar a crise imobiliária.”
“Não podemos resolver sozinhos a crise habitacional global. Precisamos que os governos, as autoridades locais, a sociedade civil, o mundo académico, as comunidades e o sector privado trabalhem em conjunto”, acrescentou.
A Nova Agenda Urbana, 10 anos depois
O fórum de Baku também assinalará um marco político importante: este ano marca o décimo aniversário da Nova Agenda Urbana adotada em 2016.
Além disso, em Julho, a Assembleia Geral da ONU na cidade de Nova Iorque realizará uma revisão intercalar da Agenda, e espera-se que as discussões em Baku ajudem a determinar até que ponto o mundo progrediu na criação de cidades mais sustentáveis, seguras e acessíveis.
Sobre o Fórum Urbano Mundial
O Fórum Urbano Mundial foi estabelecido pela Assembleia Geral da ONU em 2001 e é organizado pela ONU-Habitat. Realizada a cada dois anos, é considerada a principal conferência internacional focada na urbanização sustentável e no futuro das cidades.
O fórum reúne governos, planeadores urbanos, investigadores, grupos da sociedade civil e representantes do sector privado para examinar como o rápido crescimento urbano está a afectar as comunidades, as economias, as infra-estruturas e o clima. Desde a primeira sessão em Nairobi, em 2002, o fórum tem sido organizado por cidades de todo o mundo. Cerca de 40.000 participantes de 182 países estão registrados para participar do fórum de Baku.
Fonte: VEJA Economia
