Mente sobre máquina: ONU pede proteções éticas para revolução tecnológica cerebral

As tecnologias assistivas podem permitir que uma pessoa escreva ou mova objetos no espaço usando suas ondas cerebrais.

Parece ficção científica, ou mesmo magia: a capacidade de comunicar, controlar um computador ou mover um membro robótico através do poder do pensamento.

No entanto, não só é possível, como já está a transformar a vida de pacientes com deficiências graves.

Em 2024, uma audiência numa conferência da ONU em Genebra ficou espantada quando um jovem em Portugal com “síndrome do encarceramento” – uma doença neurológica que o deixou incapaz de mover qualquer parte do seu corpo – foi capaz de “falar” com eles, utilizando uma interface cérebro-computador (BCI) que traduziu os seus pensamentos em palavras, faladas na sua voz, e respondeu às suas perguntas.

Este é um exemplo notável do crescente campo da neurotecnologia, que traz grandes esperanças para aqueles que vivem com deficiências e perturbações mentais, como a doença de Parkinson, a epilepsia e a depressão resistente ao tratamento.

Privacidade mental: uma batalha perdida?

Mas embora a utilização da neurotecnologia no sector médico esteja estritamente regulamentada, a sua utilização noutras áreas está a suscitar preocupações.

Produtos como bandanas, relógios e fones de ouvido que monitoram a frequência cardíaca, os padrões de sono e outros indicadores de saúde são cada vez mais populares. Os dados que recolhem podem fornecer informações profundas sobre os nossos pensamentos, reações e emoções privadas, melhorando a qualidade de vida.

Isto coloca desafios éticos e de direitos humanos, porque os fabricantes são atualmente livres de vender ou transmitir sem restrições. Os indivíduos enfrentam a possibilidade de ter a sua privacidade mental mais íntima invadida, os seus pensamentos expostos, monetizados e até controlados.

“Trata-se de liberdade de pensamento, agência e privacidade mental”, afirma Dafna Feinholz, chefe interina de Pesquisa, Ética e Inclusão da UNESCO.

Ela teme que a batalha pela privacidade mental esteja sendo perdida na era das mídias sociais, com os usuários voluntariamente enviando suas vidas privadas para plataformas pertencentes a um punhado de empresas gigantes de tecnologia.

“As pessoas dizem ‘não tenho nada a esconder’, mas não entendem o que estão revelando”, acrescenta ela.

As tecnologias assistivas podem permitir que uma pessoa escreva ou mova objetos no espaço usando suas ondas cerebrais.

“Já estamos sendo perfilados pela IA, mas agora existe essa possibilidade de entrar nos pensamentos, medir diretamente a atividade do cérebro e inferir estados mentais. Essas tecnologias podem até modificar a estrutura do seu sistema nervoso, permitindo que você seja manipulado. As pessoas precisam saber que essas ferramentas são seguras e que, se desejarem, podem parar de usá-las.”

As pessoas precisam saber que essas ferramentas são seguras e que, se desejarem, podem parar de usá-las

O responsável da ONU insiste que, embora tenhamos de aceitar que precisamos de conviver com a tecnologia, podemos garantir que os humanos continuem no comando.

“Quanto mais nos rendemos ao poder e à superioridade dessas ferramentas, mais seremos dominados. Precisamos controlar o que elas fazem e o que queremos que elas alcancem, porque somos nós que as produzimos. Esta é nossa responsabilidade por toda a tecnologia que criamos.”

É hora de uma abordagem ética

Sra. Feinholz falou com Notícias da ONU da antiga cidade uzbeque de Samarcanda, onde, na quarta-feira, delegados dos Estados-Membros da UNESCO – a agência das Nações Unidas para a educação, a ciência e a cultura – adoptaram formalmente uma “Recomendação” (orientações não vinculativas sobre princípios e melhores práticas que podem constituir a base das políticas nacionais) sobre a ética da neurotecnologia, com ênfase na protecção da dignidade humana, dos direitos e das liberdades.

A orientação defende a promoção do bem-estar e a prevenção de danos associados à tecnologia, a liberdade de pensamento (garantindo que os indivíduos mantêm o controlo sobre a sua mente e corpo) e que os criadores, investigadores e utilizadores respeitem padrões éticos e sejam responsáveis ​​pelas suas ações.

Os Estados-Membros estão a ser aconselhados a implementar diversas medidas, incluindo a implementação de quadros jurídicos e éticos para monitorizar a utilização da neurotecnologia, proteger os dados pessoais e avaliar o impacto nos direitos humanos e na privacidade.

“Os humanos precisam estar por dentro”, declara a Sra. Feinholz. “É preciso haver transparência, reparação e compensação, como acontece em outros setores. Tomemos como exemplo os restaurantes. Se você come fora, não precisa saber cozinhar. Mas se você pedir um espaguete à carbonara e ficar doente, você pode reclamar com o proprietário. Há responsabilidade. O mesmo deve se aplicar à neurotecnologia: mesmo que você não entenda como ela funciona, tem que haver uma cadeia de responsabilidade.”

Fonte: VEJA Economia

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